Em 1959, Margot Dias levou a cabo um pequeno projecto etnográfico
em Macupulane (distrito de Manjacaze, província de Gaza) no sul de
Moçambique, sobre “aspectos técnicos da olaria dos Chopes” (Dias,
1960). Projectos semelhantes de etnografia e antropologia, realizados
em contextos coloniais, apresentam sociedades sob domínio colonial
como vivendo num eterno presente, sem que as suas vidas sofressem o impacto de acontecimentos históricos. Investigação semelhante à de
M. Dias tem sido utilizada para a criação de modelos interpretativos de
material arqueológico. O objectivo deste artigo é discutir a necessidade
de trabalho etnográfico que tenha em atenção o contexto histórico
em que as actividades tenham tido lugar e as mudanças ocorridas
no passado recente. O projecto sobre produção cerâmica em Macupulane
mostra como factores históricos (por exemplo, as consequências
do colonialismo português e da guerra civil) tiveram um impacto profundo
no sistema de produção cerâmica desde 1959. De actividade
exclusivamente feminina passou, com a introdução da roda de oleiro,
a ser dominada por homens que fabricam recipientes em quantidade
com vista a fornecer mercados regionais. A combinação de uma perspectia
diacrónica (histórica) e da observação etnográfica efectuada
num tempo curto contribui mais eficazmente para a investigação arqueológica
do que a realizada somente num tempo longo. Uma etnoarqueologia
enformada por uma perspectiva histórica investiga questões
de mudança não se baseando em modelos sincrónicos que continuam
a apresentar populações não-ocidentais como vivendo num eterno presente.